Capítulo 1 Dos gêneros de monges
RB 1,1-5
sabido que há quatro gêneros de monges. O primeiro é o dos cenobitas, isto é, o monasterial, dos que militam sob uma Regra e um Abade. O segundo gênero é o dos anacoretas, isto é, dos eremitas, daqueles que, não por um fervor inicial da vida monástica, mas através de provação diuturna no mosteiro, instruídos então na companhia de muitos aprenderam a lutar contra o demônio e, bem adestrados nas fileiras fraternas, já estão seguros para a luta isolada do deserto, sem a consolação de outrem, e aptos para combater com as próprias mãos e braços, ajudando-os Deus, contra os vícios da carne e dos pensamentos.
RB 1,6-13
terceiro gênero de monges, e detestável, é o dos sarabaítas, que, não tendo sido provados, como o ouro na fornalha, por nenhuma regra, mestra pela experiência, mas amolecidos como numa natureza de chumbo, conservam-se por suas obras fiéis ao século, e são conhecidos por mentir a Deus pela tonsura. São aqueles que se encerram dois ou três ou mesmo sozinhos, sem pastor, não nos apriscos do Senhor, mas nos seus próprios; a satisfação dos desejos é para eles lei, visto que tudo quanto julgam dever fazer ou preferem, chamam de santo, e o que não desejam reputam ilícito. O quarto gênero de monges é o chamado dos giróvagos, que por toda a sua vida se hospedam nas diferentes províncias, por três ou quatro dias nas celas de outros monges, sempre vagando e nunca estáveis, escravos das próprias vontades e das seduções da gula, e em tudo piores que os sarabaítas. Sobre o misérrimo modo de vida de todos esses é melhor calar que dizer algo. Deixando-os de parte, vamos dispor, com o auxilio do Senhor, sobre o poderosíssimo gênero dos cenobitas.
Declaratio arts. 79-80
79. Seguindo a nossa vocação, entramos no mosteiro Cisterciense que livremente escolhemos, para recebermos os ensinamentos da escola do serviço do Senhor6; depois assumimos, por livre vontade, ao emitir a profissão, as tarefas e os ideais da vida do nosso mosteiro7. Portanto, a vida monástica não nos foi imposta, mas aceita por livre e voluntária consagração. Assim, nossas comunidades são formadas por "voluntárias" que aspiram ao mesmo fim, conhecido por todos e por todos desejado. Habitamos, deste modo, unânimes no mosteiro e temos um só coração e uma só alma8.
80. A base vital, portanto, da comunidade monástica é a livre e voluntária consagração dos monges, que têm em grande estima os valores e as tarefas da vida do mosteiro e os assumem como seus. Essa livre consagração e alegre convicção é a força que os move e às observâncias das leis e é também o fundamento de toda a estrutura jurídica. Faltando ela, a comunidade monástica, como qualquer sociedade composta de pessoas reunidas por livre vontade, perde a sua vitalidade. É, pois, sumamente importante que os monges conservem viva e ardente essa livre decisão pela qual abraçaram livremente a vida monástica e que qualquer ordem e estruturação da vida comunitária leve em conta essa livre vontade e deliberação, procurando promovê-la e desenvolvê-la.
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6 RB, Pról.. 45.
7 Para vivir a profissão «segundo a Regra de S. Bento», é
necessário que haja o propósito - ainda que não se agregue nada ulteriormente - de observar as Constituições,
as «Vida Cisterciense Hodierna» e outras leis semelhantes, como também os usos e costumes de cada
mosteiro, que completam a Regra ou bem as adaptam às circunstâncias locais.
8 Act 4,32.
Capítulo 2 Como deve ser o Abade
RB 2,1-10
Abade digno de presidir ao mosteiro, deve lembrar-se sempre daquilo que é chamado, e corresponder pelas ações ao nome de superior. Com efeito, crê-se que, no mosteiro ele faz as vezes do Cristo, pois é chamado pelo mesmo cognome que Este, no dizer do Apóstolo: "Recebestes o espírito de adoção de filhos, no qual clamamos: ABBA, Pai." Por isso o Abade nada deve ensinar, determinar ou ordenar, que seja contrário ao preceito do Senhor, mas que a sua ordem e ensinamento, como o fermento da divina justiça se espalhe na mente dos discípulos; lembre-se sempre o abade de que da sua doutrina e da obediência dos discípulos, de ambas essas coisas, será feita apreciação no tremendo juízo de Deus.
E saiba o Abade que é atribuído à culpa do pastor tudo aquilo que o Pai de família puder encontrar de menos no progresso das ovelhas. Em compensação, de outra maneira será, se a um rebanho irrequieto e desobediente tiver sido dispensada toda diligência do pastor e oferecido todo o empenho na cura de seu atos malsãos; absolvido então o pastor no juízo do Senhor, diga ao mesmo com o Profeta: "Não escondi vossa justiça em meu coração, manifestei vossa verdade e a vossa salvação; eles, porém, com desdém desprezaram-me". E então, finalmente, que prevaleça a própria morte como pena para as ovelhas que desobedeceram aos seus cuidados.
RB 2,11-15
ortanto, quando alguém recebe o nome de Abade, deve presidir a seus discípulos usando de uma dupla doutrina, isto é, apresente as coisas boas e santas, mais pelas ações do que pelas palavras, de modo que aos discípulos capazes de entendê-las proponha os mandamentos do Senhor por meio de palavras, e aos duros de coração e aos mais simples mostre os
preceitos divinos pelas próprias ações. Assim, tudo quanto ensinar aos discípulos como sendo nocivo, indique pela sua maneira de agir que não se deve praticar, a fim de que. pregando aos outros, não se torne ele próprio réprobo, e Deus não lhe diga um dia como a um pecador: "Por que narras as minhas leis e anuncias o meu testamento pela tua boca? tu que odiaste a disciplina e atiraste para trás de ti as minhas palavras", e ainda: "Vias o argueiro no olho de teu irmão e não viste a trave no teu próprio".
Declaratio arts. 94-96
94. O Abade, antes de tudo, é o pastor das almas, isto é, o seu múnus, e, antes de tudo, espiritual, visando o bem das almas9. Sua autoridade é uma diaconia, tem o caráter de um humilde serviço, conforme a doutrina e o exemplo do Cristo, a quem representa10. Convém, pois, que tenha e manifeste por seus irmãos aquele amor paterno com o qual o Pai celeste ama os monges11.
95. O Abade é, além disso, mediador da Palavra de Deus, desempenhando o ofício de intérprete das Sagradas Escrituras nas múltiplas circunstâncias da vida de cada dia. O Abade nunca pode prevalecer sobre a Palavra divina, mas, ao contrário, deve ser-lhe cada vez mais submisso.
96. Não é de menor importância o outro ofício do Abade, que o Apóstolo indica pelo nome de discernimento dos espíritos . O Abade deve esforçar-se por discernir se cada um de seus monges é conduzido pelo Espírito de Deus ou se é enganado por suas aspirações meramente terrenas, por seu próprio eu ou pelo espírito da mentira. E para que possa discernir a voz do Espírito Santo de qualquer outra voz, é mister que ele próprio seja versado, tanto na doutrina como na experiência das coisas espirituais.
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9 Concernete a isto o Capítulo Geral de 1968 concluiu um trabalho
preparatório.
10 RB 2,2; veja-se também Perfectæ Caritatis,14.
11 Perfectæ Caritatis, 14.
12 1 Cor 12,10.
RB 2,16-22
ue não seja feita por ele distinção de pessoas no mosteiro. Que um não seja mais amado que outro, a não ser aquele que for reconhecido melhor nas boas ações ou na obediência. Não anteponha o nascido livre ao originário de condição servil, a não ser que exista outra causa razoável para isso; pois se parecer ao Abade que deve fazê-lo por questão de justiça, fá-lo-á seja qual for a condição social; caso contrário, man-tenham todos seus próprios lugares, porque, servo ou livre, somos todos um em Cristo e sob um só Senhor caminhamos submissos na mesma milícia de servidão: "Porque não há em Deus acepção de pessoas". Somente num ponto somos por ele distinguidos, isto é, se formos melhores do que os outros nas boas obras e humildes. Seja pois igual a caridade dele para com todos; que uma só disciplina seja proposta a todos, conforme os merecimentos de cada um.
Declaratio arts. 97-98
97. O Abade é o centro da unidade da comunidade, promovendo a concórdia de todos com relação aos fins comuns e coordenando os esforços e trabalhos de todos os monges. Por isso, o Abade deve ter em grande apreço, compreender e tratar com o devido respeito a pessoa de cada monge. Cuide de ter tempo disponível e o coração aberto para todos os monges; incite-os, não a uma obediência qualquer, mas a uma obediência ativa e responsável à cordial colaboração de cada um, para que os dons de todos dêem frutos no serviço de Deus; procure promover um diálogo sincero e aberto; ponha os monges a par das preocupações e planos da vida do mosteiro e de todos os negócios da casa, pois tudo isso lhes diz respeito. Assuma, porém, a responsabilidade do que lhe compete, por ofício, quando tiver decidido com precisão aquilo que, após diligente exame, lhe parece ser a vontade de Deus.
98. O Abade, para suscitar a unidade, rejeite tudo o que tende a separá-lo de seus monges; leve a vida regular com os irmãos, apresentando-se como modelo de fidelidade e zelo; restrinja ao mínimo possível os assuntos que exigem sua ausência do mosteiro. Mesmo sendo Abade, ele permanece monge e irmão entre os irmãos e, assim, como
centro de unidade e caridade, entregue-se totalmente aos irmãos no amor do Cristo.
RB 2,23-29
ortanto, em sua doutrina deve sempre o Abade observar aquela fórmula do Apóstolo: "Repreende, exorta, admoesta", isto é, temperando as ocasiões umas com as outras, os carinhos com os rigores, mostre a severidade de um mestre e o pio afeto de um pai, quer dizer: aos indisciplinados e inquietos deve repreender mais duramente, mas aos obedientes, mansos e pacientes, deve exortar a que progridam ainda mais, e quanto aos negligentes e desdenhosos, advertimos que os repreenda e castigue. Não dissimule as faltas dos culpados, mas logo que começarem a brotar ampute-as pela raiz, como lhe for possível, lembrando-se da desgraça de Heli, sacerdote de Silo. Aos mais honestos e de ânimo compreensível, censure por palavras em primeira e segunda advertência; porém aos improbos, duros e soberbos ou desobedientes reprima com varadas ou outro castigo corporal, desde o início da falta, sabendo que está escrito: "O estulto não se corrige com palavras". E mais: "Bate no teu filho com a vara e livrarás a sua alma da morte".
Declaratio art. 115
115. O Abade Presidente governa a Congregação de acordo com o Capítulo da Congregação e é o sinal do amor fraterno pelo qual os mosteiros se unem. Ele trabalha para que nas famílias monásticas a vida religiosa floresça convenientemente, firme-se e se desenvolva, conforme as Constituições da Congregação.
Cabe-lhe fomentar as relações entre os mosteiros para o bem de toda a Congregação. Convém que, neste ponto, os Abades e os monges de todos os mosteiros ajudem o Abade Presidente, alimentando as relações fraternas entre si, recebendo-se uns aos outros de bom grado, participando dos esforços, encontrando-se para conferências sobre assuntos espirituais ou administrativos e procurando conhecer-se e estimar-se mutuamente.
RB 2,30-32
eve sempre lembrar-se o Abade daquilo que é; lembrar-se de como é chamado, e saber que daquele a quem mais se confia mais se exige. E saiba que coisa difícil e árdua recebeu: reger as almas e servir aos temperamentos de muitos; a este com carinho, àquele, porém, com re-preensões, a outro com persuasões segundo a maneira de ser ou a inteligência de cada um, de tal modo se conforme e se adapte a todos, que não somente não venha a sofrer perdas no rebanho que lhe foi confiado, mas também se alegre com o aumento da boa grei.
RB 2,33-40
ntes de tudo, que não trate com mais solicitude das coisas transitórias, terrenas e caducas, negligenciando ou tendo em pouco a salvação das almas que lhe foram confiadas, mas pense sempre que recebeu almas a dirigir, das quais deverá também prestar contas. E para que não venha, porventura, a alegar falta de recursos, lembrar-se-á do que esta escrito: "Buscai primeiro reino de Deus e sua justiça, e todas as coisas vos serão dadas por acréscimo"; e ainda: "Nada falta aos que O temem". E saiba que quem recebeu almas a dirigir, deve preparar-se para prestar contas. Saiba como certo que de todo o número de irmãos que tiver possuído sob seu cuidado, no dia do juízo, deverá prestar contas ao Senhor das almas de todos eles, e mais, sem dúvida também da sua própria alma. E assim, temendo sempre a futura apreciação do pastor acerca das ovelhas que lhe foram confiadas enquanto cuida das contas alheias, torna-se solícito para com a suas próprias, e enquanto com suas exortações subministra a emenda aos outros, consegue ele próprio emendar-se de seu vícios.
Declaratio art. 123
123. O Abade Geral, eleito pelo Capítulo Geral, governa a Ordem segundo orientação desse mesmo CapítuIo Geral e as normas das Constituições e
promove os fins de nossa união.
O Abade Geral é:
a) Promotor e o centro da unidade fraterna na Ordem, em primeiro lugar porque, esforçando-se por ser justo e imparcial, acha-se em condições de servir aos múltiplos costumes e de promover e representar todas as famílias da Ordem. Ele considera como seus os valores e os ideais da Ordem, tanto no seu modo pessoal de agir como nos atos oficiais. Sente com a Ordem, tal como esta existe concretamente em nossas comunidades, percebendo, de coração aberto, suas preocupações, tendências e opiniões.
b) O promotor e coordenador dos projetos e resoluções comuns que excedem as forças particulares de cada comunidade e congregação e são úteis a todos ou a muitos. Ele mesmo tem parte ativa na formação e elaboração de tais projetos, estimula as iniciativas dos outros e colabora para a sua execução por palavras e atos.
c) Usando de sua autoridade, sancionada pelas Constituições, é, no serviço de todos, um pai e ainda um irmão entre irmãos, segundo o espírito do Cristo, desejando antes servir do que presidir. Nas cartas, sermões ou em outras comunicações à Ordem use o estilo de um irmão, de um condiscípulo e conservo do Senhor, que procura, juntamente com os outros irmãos, a verdade e a vontade de Deus. Possuindo da convicção e da clarividência dos valores da vocação religiosa, esforce-se por abrir aos monges e às comunidades, novas perspectivas e possibilidades e infundir-lhes a confiança no futuro.
Capítulo 3 Da convocação dos irmãos a conselho
RB 3,1-6
odas as vezes que deverem ser feitas coisas importantes no mosteiro, convoque o Abade toda a comunidade e diga ele próprio de que se trata. Ouvindo o conselho dos irmãos, considere consigo mesmo e faça o que julgar mais útil. Dissemos que todos fossem chamados a conselho porque muitas vezes o Senhor revela ao mais moço o que é melhor.
Dêem pois os irmãos o seu conselho com toda a submissão da humildade e não ousem defender arrogantemente o seu parecer, e que a solução dependa antes do arbítrio do Abade, e todos lhe obedeçam no que ele tiver julgado ser mais salutar; mas, assim como convém aos discípulos obedecer ao mestre, também a este convém dispor todas as coisas com prudência e justiça.
RB 3,7-13
m tudo, pois, sigam todos a Regra como mestra, nem dela se desvie alguém temerariamente. Ninguém, no mosteiro, siga a vontade do próprio coração, nem ouse discutir insolentemente com seu abade, nem mesmo discutir com ele fora do mosteiro. E, se ousar fazê-lo, seja submetido à disciplina regular. No entanto, que o próprio abade faça tudo com temor de Deus e observância da Regra, cônscio de que, sem dúvida alguma, de todos os seus juízos deverá dar contas a Deus, jus-tíssimo juiz. Se, porém, for preciso fazer alguma coisa de menor importância dentre os negócios do mosteiro, use o Abade somente do conselho dos mais velhos, conforme o que está escrito: "Faze tudo com conselho e depois de feito não te arrependerás".
Declaratio arts. 102-107
102. Havendo assuntos de maior importância a tratar no mosteiro, principalmente nos casos previstos nas Constituições das congregações ou no direito comum, o Capítulo conventual tem atuação no governo da casa. Aí, por um ato verdadeiramente colegial, elege-se o Abade e colegialmente se tomam as decisões relativas às atividades do mosteiro, à admissão e formação dos novos elementos e à administração dos bens.
103. Mas a participação do Capítulo não deve restringir-se unicamente aos casos em que, conforme o direito comum ou particular, deve dar seus votos consultivos ou deliberativos; os monges devem mais freqüentemente reunir-se para trocar idéias, para um verdadeiro diálogo fraterno, a fim de que a sua colaboração e o seu zelo pelo bem do mosteiro sejam
eficazmente aproveitados13. O Capítulo Conventual deve ser também o centro de informações dos assuntos do mosteiro, da congregação e da Ordem, e aí ainda os oficiais exponham o que tiverem realizado e os peritos tratem de assuntos da atualidade.
104. Haja uma seleção nos assuntos a serem tratados em capítulo, feita com a ajuda do Conselho, que assessora mais de perto o Abade, tomando-se em consideração os desejos e questões propostos por qualquer um dos monges; sejam os assuntos notificados aos capitulares com antecedência e no devido modo, para que eles tenham tempo de estudar e de refletir. Quando for oportuno, as respostas sejam dadas por escrito. A obrigação do segredo seja restrita aos assuntos que exigem absoluta discrição, mas os monges, com os de fora, guardem sempre a máxima discrição sobre os assuntos da família monástica.
105. Providenciem-se em cada comunidade meios adequados para, habitualmente, sem demora e com exatidão, se manterem os monges que residem fora do mosteiro, ao par dos assuntos da casa, da congregação e da Ordem.
106. O Conselho do Abade, mais restrito pelo número de seus membros que, geralmente, são chamados "seniores"14, deve ser convocado para tratar de assuntos de necessidade ou utilidade da família monástica e também dos assuntos que devem ser mantidos sob segredo. A metade dos membros do Conselho deve ser eleita pela comunidade e a outra metade nomeada pelo Abade.
107. Pondo em prática estes princípios e conselhos, as comunidades poderão adquirir novo vigor. Serão verdadeiras famílias unidas pela caridade15 na casa de Deus, verdadeiras legiões de irmãos bem disciplinados e alegres por uma sólida união16, onde cada um, desempenhando o seu ofício, a todos serve e é por todos apoiado.
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13 Perfectæ Caritatis, 14.
14 RB 3, 12.
15 Veja-se RB, Pról 45; 31, 19 e 53, 22.
16 RB 1, 5.
Capítulo 4 Quais são os instrumentos das boas obras
RB 4,1-21
rimeiramente, amar ao Senhor Deus de todo o coração, com toda a alma, com todas as forças.
Depois, amar ao próximo como a si mesmo.
Em seguida, não matar.
Não cometer adultério.
Não furtar.
Não cobiçar.
Não levantar falso testemunho.
Honrar todos os homens.
E não fazer a outrem o que não quer que lhe seja feito.
Abnegar-se a si mesmo para seguir o Cristo.
Castigar o corpo.
Não abraçar as delícias.
Amar o jejum.
Reconfortar os pobres.
Vestir os nus.
Visitar os enfermos.
Sepultar os mortos.
Socorrer na tribulação.
Consolar o que sofre.
Fazer-se alheio às coisas do mundo.
Nada antepor ao amor de Cristo.
RB 4,22-43
ão satisfazer a ira.
Não reservar tempo para a cólera.
Não conservar a falsidade no coração.
Não conceder paz simulada.
Não se afastar da caridade.
Não jurar para não vir a perjurar.
Proferir a verdade de coração e de boca.
Não retribuir o mal com o mal.
Não fazer injustiça, mas suportar pacientemente as que lhe são feitas.
Amar os inimigos.
Não retribuir com maldição aos que o amaldiçoam, mas antes abençoá-los. Suportar perseguição pela justiça.
Não ser soberbo.
Não ser dado ao vinho.
Não ser guloso.
Não ser apegado ao sono.
Não ser preguiçoso.
Não ser murmurador.
Não ser detrator.
Colocar toda a esperança em Deus.
O que achar de bem em si, atribuí-lo a Deus e não a si mesmo.
Mas, quanto ao mal, saber que é sempre obra sua e a si mesmo atribuí-lo.
RB 4,44-62
emer o dia do juízo.
Ter pavor do inferno.
Desejar a vida eterna com toda a cobiça espiritual.
Ter diariamente diante dos olhos a morte a surpreendê-lo.
Vigiar a toda hora os atos de sua vida.
Saber como certo que Deus o vê em todo lugar.
Quebrar imediatamente de encontro ao Cristo os maus pensamentos que lhe advêm ao coração e revelá-los a um
conselheiro espiritual.
Guardar sua boca da palavra má ou perversa.
Não gostar de falar muito.
Não falar palavras vãs ou que só sirvam para provocar riso.
Não gostar do riso excessivo ou ruidoso.
Ouvir de boa vontade as santas leituras.
Dar-se freqüentemente à oração.
Confessar todos os dias a Deus na oração, com lágrimas e gemidos, as faltas passadas e daí por diante
emendar-se delas.
Não satisfazer os desejos da carne.
Odiar a própria vontade.
Obedecer em tudo às ordens do Abade, mesmo que este, o que não aconteça, proceda de outra forma, lembrando-se do
preceito do Senhor: "Fazei o que dizem, mas não o que fazem".
Não querer ser tido como santo antes que o seja, mas primeiramente sê-lo para que como tal o tenham com mais
fundamento.
RB 4,63-78
ôr em prática diariamente os preceitos de Deus.
Amar a castidade.
Não odiar a ninguém. Não ter ciúmes.
Não exercer a inveja.
Não amar a rixa.
Fugir da vanglória.
Venerar os mais velhos.
Amar os mais moços.
Orar, no amor de Cristo, pelos inimigos.
Voltar à paz, antes do pôr-do-sol, com aqueles com quem teve desavença.
E nunca desesperar da misericórdia de Deus.
Eis aí os instrumentos da arte espiritual: se forem postos em ação por nós, dia e noite, sem cessar, e devolvidos
no dia do juízo, seremos recompensados pelo Senhor com aquele prêmio que Ele mesmo prometeu: "O que olhos não
viram nem ouvidos ouviram preparou Deus para aqueles que o amam". São, porém, os claustros do mosteiro e a
estabilidade na comunidade a oficina onde executaremos diligentemente tudo isso.
Declaratio arts. 46-47
46. Deus nos chama não apenas ao fim acima exposto, mas quer que empreguemos os meios que Ele nos preparou, tais como os conselhos evangélicos, a vida comunitária Cisterciense, a vida de oração, o amor à cruz e o serviço dos homens, pelo nosso trabalho.
47. Para seguirmos, de modo especial a Cristo-Mestre como discípulos, abraçamos os conselhos evangélicos, a fim de a Ele sempre mais nos unirmos
e mais depressa e cada vez mais intimamente segui-lo pelo caminho da conversão monástica.
Capítulo 5 Da obediência
RB 5,1-13
primeiro grau da humildade é a obediência sem demora. É peculiar àqueles que estimam nada haver mais caro que o Cristo; por causa do santo serviço que professaram, por causa do medo do inferno ou por causa da glória da vida eterna, desconhecem o que seja demorar na execução de alguma coisa logo que ordenada pelo superior, como sendo por Deus ordenada. Deles diz o Senhor: "Logo ao ouvir-me, obedeceu-me". E do mesmo modo diz aos doutores: "Quem vos ouve a mim ouve".
Pois são esses mesmos que, deixando imediatamente as coisas que lhes dizem respeito e abandonando a própria vontade, desocupando logo as mãos e deixando inacabado o que faziam, seguem com seus atos, tendo os passos já dispostos para a obediência, a voz de quem ordena. E, como que num só momento, ambas as coisas - a ordem recém-dada do mestre e a perfeita obediência do discípulo - são realizadas simultânea e rapidamente, na prontidão do temor de Deus. Apodera-se deles o desejo de caminhar para a vida eterna; por isso, lançam-se como que de assalto ao caminho estreito do qual diz o Senhor: "Estreito é o caminho que conduz à vida", e assim, não tendo, como norma de vida a própria vontade, nem obedecendo aos próprios desejos e prazeres, mas caminhando sob o juízo e domínio de outro e vivendo em comunidade, desejam que um Abade lhes presida. Imitam, sem dúvida, aquela máxima do Senhor que diz: "Não vim fazer minha vontade, mas a d'Aquele que me enviou".
RB 5,14-19
as essa mesma obediência somente será digna da aceitação de Deus e doce aos homens, se o que é ordenado for executado sem tremor, sem delongas, não mornamente, não com murmuração, nem com resposta de quem não quer. Porque a obediência prestada aos superiores é tributada a Deus. Ele próprio disse: "Quem vos ouve, a mim me ouve". E convém que seja prestada de boa vontade pelos discípulos, porque "Deus ama aquele que dá com alegria". Pois, se o discípulo obedecer de má vontade e se murmurar, mesmo que não com a boca, mas só no coração, ainda que cumpra a ordem, não será mais o seu ato aceito por Deus que vê seu coração a murmurar; e por tal ação não consegue graça alguma, e, ainda mais, incorre no castigo dos murmuradores se não se emendar pela satisfação.
Declaratio arts. 52-53
52. A obediência significa, antes de tudo, ter o coração aberto para receber as inspirações do Espírito Santo, porque Ele sopra onde quer e nos torna conhecida a vontade de Deus por muitos modos. Como o alimento de Cristo era fazer a vontade dAquele que o enviara, assumindo a forma de servo e fazendo-se obediente até a morte de cruz17, assim também nós, que queremos seguir a Cristo mais de perto, devemos procurar conhecer a vontade do Pai para cumprí-Ia prontamente.
É a Igreja que, freqüentemente, nos transmite a vontade de Deus, na doutrina e exortações dos Sumos Pontífices, da Santa Sé, dos bispos e abades, que devem não apenas orientar a nossa vida exterior, mas também plasmar a nossa espiritualidade.
53. Os monges, desejando em espírito de fé e de amor, fazer a vontade de Deus, querem ter o abade, que ocupa o lugar do Cristo18, como seu Pai espiritual e humildemente lhe obedecer conforme a Regra e as Constituições. Colocam seus dotes de inteligência e de vontade na execução das ordens e na realização dos trabalhos que lhe são confiados,
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17 Fl 2,8.
18 RB 2,2 y 63,13. Veja-se DE VOGÜÉ, op. cit., p. 128-144, II.
certos de, assim, colaborarem para a edificação do Corpo de Cristo, segundo o plano de Deus. A obediência religiosa, desse modo, longe de diminuir a dignidade da pessoa humana, a leva à maturidade, pela liberdade dos filhos de Deus.
Capítulo 6 Do silêncio
RB 6,1-8
açamos o que diz o profeta: "Eu disse, guardarei os meus caminhos para que não peque pela língua: pus uma guarda à minha boca: emudeci, humilhei-me e calei as coisas boas". Aqui mostra o Profeta que, se, às vezes, se devem calar mesmo as boas conversas, por causa do silêncio, quanto mais não deverão ser suprimidas as más palavras, por causa do castigo do pecado? Por isso, ainda que se trate de conversas boas, santas e próprias a edificar, raramente seja concedida aos discípulos perfeitos licença de falar, por causa da gravidade do silêncio, pois está escrito: "Falando muito não foges ao pecado", e em outro lugar: "a morte e a vida estão em poder da língua". Com efeito, falar e ensinar compete ao mestre; ao discípulo convém calar e ouvir.
Por isso, se é preciso pedir alguma coisa ao superior, que se peça com toda a humildade e submissão da reverência. Já quanto às brincadeiras, palavras ociosas e que provocam riso, condenamo-las em todos os lugares a uma eterna clausura, para tais palavras não permitimos ao discípulo abrir a boca.
Declaratio arts. 48-49
48. A castidade voluntária, escolhida por causa do Reino de Deus, não é mera renúncia ao matrimônio19 e às alegrias da família natural, mas uma libertação para que, com todas as nossas forças físicas e psíquicas, nos
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19Sobre a atual questão exegética, veja-se Th. MATURA, La vie religieuse au tournant (París 1971) 82-85.