certos de, assim, colaborarem para a edificação do Corpo de Cristo, segundo o plano de Deus. A obediência religiosa, desse modo, longe de diminuir a dignidade da pessoa humana, a leva à maturidade, pela liberdade dos filhos de Deus.
Capítulo 6 Do silêncio
RB 6,1-8
açamos o que diz o profeta: "Eu disse, guardarei os meus caminhos para que não peque pela língua: pus uma guarda à minha boca: emudeci, humilhei-me e calei as coisas boas". Aqui mostra o Profeta que, se, às vezes, se devem calar mesmo as boas conversas, por causa do silêncio, quanto mais não deverão ser suprimidas as más palavras, por causa do castigo do pecado? Por isso, ainda que se trate de conversas boas, santas e próprias a edificar, raramente seja concedida aos discípulos perfeitos licença de falar, por causa da gravidade do silêncio, pois está escrito: "Falando muito não foges ao pecado", e em outro lugar: "a morte e a vida estão em poder da língua". Com efeito, falar e ensinar compete ao mestre; ao discípulo convém calar e ouvir.
Por isso, se é preciso pedir alguma coisa ao superior, que se peça com toda a humildade e submissão da reverência. Já quanto às brincadeiras, palavras ociosas e que provocam riso, condenamo-las em todos os lugares a uma eterna clausura, para tais palavras não permitimos ao discípulo abrir a boca.
Declaratio arts. 48-49
48. A castidade voluntária, escolhida por causa do Reino de Deus, não é mera renúncia ao matrimônio19 e às alegrias da família natural, mas uma libertação para que, com todas as nossas forças físicas e psíquicas, nos
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19Sobre a atual questão exegética, veja-se Th. MATURA, La vie religieuse au tournant (París 1971) 82-85.
entreguemos às coisas de Deus e da Igreja. Pela profissão religiosa, queremos, de um modo mais direto e íntimo, dar testemunho da expectativa cristã do século futuro, onde não há matrimônio20. Por isso, a castidade é um notável sinal escatológico da nossa vida.
49. Essa consagração total a Deus deve fornecer o alicerce para a edificação da família monástica. Nessa família de Deus, a caridade comum e a mesma vocação dão origem à dileção fraterna e ao auxílio mútuo de seus membros. Por um lado, devemos, assim, carregar fielmente os fardos uns dos outros21, e, por outro lado, todos participarmos das graças e virtudes nos quais cada um se distingue. Abraçamos, então, de um modo esplêndido, o caminho comunitário da salvação que Deus mesmo abriu na Igreja para os homens. Deus abre então os nossos corações para que possamos amar com sincera e operosa caridade todos os que nos cercam, em primeiro lugar nossos irmãos e irmãs no mosteiro.
Capítulo 7 Da humildade
RB 7,1-4
rmãos, a Escritura divina nos clama dizendo: "Todo aquele que se exalta será humilhado e todo aquele que se humilha será exaltado". Indica-nos com isso que toda elevação é um gênero da soberba, da qual o Profeta mostra precaver-se quando diz: "Senhor, o meu coração não se exaltou, nem foram altivos meus olhos; não andei nas grandezas, nem em maravilhas acima de mim. Mas, que seria de mim se não me tivesse feito humilde, se tivesse exaltado minha alma? Como aquele que é desmamado de sua mãe, assim retribuirias a minha alma.
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20 Mt 22, 30 e paralelos.
21 Gl 6, 2.
RB 7,5-9
e, portanto, irmãos, queremos atingir o cume da suma humildade e se queremos chegar rapidamente àquela exaltação celeste para a qual se sobe pela humildade da vida presente, deve ser erguida, pela ascensão de nossos atos, aquela escada que apareceu em sonho a Jacó, na qual lhe eram mostrados anjos que subiam e desciam. Essa descida e subida, sem dúvida, outra coisa não significa, para nós, senão que pela exaltação se desce e pela humildade se sobe. Essa escada ereta é a nossa vida no mundo, a qual é elevada ao céu pelo Senhor, se nosso coração se humilha. Quanto aos lados da escada, dizemos que são o nosso corpo e alma, e nesses lados a vocação divina inseriu, para serem galgados, os diversos graus da humildade e da disciplina.
Declaratio art. 65
65. A vida do monge deve ser uma imitação do Cristo humilde. Sinceramente arrependidos de nossos pecados, cônscios de nossas limitações e, ao mesmo tempo, apoiados na misericórdia de Deus, devemos procurar a Sua glória e não a nossa. Nesse espírito de humildade, devemos aceitar, com serenidade, as tribulações e privações, e contentarmo-nos com nossos modestos meios de vida e nossos módicos resultados.
A vida monástica só pode existir sob o sinal da cruz, pois, seguindo a caridade de Cristo, que ninguém pode superar, entramos no caminho da renúncia e mortificamos o nosso corpo para servirmos o Deus vivo. Como o Cristo convidou seus discípulos a carregar a cruz, também a isso nos convida diariamente.
RB 7,10-18
ssim, o primeiro grau da humildade consiste em que, pondo sempre o monge diante dos olhos o temor de Deus, evite, absolutamente, qualquer esquecimento, e esteja, ao contrário, sempre lembrado de tudo o que
Deus ordenou, revolva sempre, no espírito, não só que o inferno queima, por causa de seus pecados, os que desprezam a Deus, mas também que a vida eterna está preparada para os que temem a Deus; e, defendendo-se a todo tempo dos pecados e vícios, isto é, dos pecados do pensamento, da língua, das mãos, dos pés e da vontade própria, como também dos desejos da carne, considere-se o homem visto do céu, a todo momento, por Deus, e suas ações vistas em toda parte pelo olhar da divindade e anunciadas a todo instante pelos anjos. Mostra-nos isso o Profeta quando afirma estar Deus sempre presente aos nossos pensamentos: "Deus que perscruta os corações e os rins". E também: "Deus conhece os pensamentos dos homens". E ainda: "De longe percebestes os meus pensamentos" e "o pensamento do homem vos será confessado". Portanto, para que esteja vigilante quanto aos seus pensamentos maus, diga sempre, em seu coração, o irmão empenhado em seu próprio bem: "se me preservar da minha iniqüidade, serei, então, imaculado diante d'Ele".
RB 7,19-23
ssim, é-nos proibido fazer a própria vontade, visto que nos diz a Escritura: "Afasta-te das tuas próprias vontades". E, também, porque rogamos a Deus na oração que se faça em nós a sua vontade.
Aprendemos, pois, com razão, a não fazer a própria vontade, enquanto nos acautelamos com aquilo que diz a Escritura: "Há caminhos considerados retos pelos homens cujo fim mergulha até o fundo do inferno", e enquanto, também, nos apavoramos com o que foi dito dos negligentes: "Corromperam-se e tornaram-se abomináveis nos seus prazeres". Por isso, quando nos achamos diante dos desejos da carne, creiamos que Deus está sempre presente junto a nós, pois disse o Profeta ao Senhor: "Diante de vós está todo o meu desejo".
RB 7,24-30
evemos, portanto, acautelar-nos contra o mau desejo, porque a morte foi colocada junto à porta do prazer. Sobre isso a Escritura preceitua dizendo: "Não andes atrás de tuas concupiscências". Logo, se os olhos do Senhor "observam os bons e os maus", e "o Senhor sempre olha do céu os filhos dos homens para ver se há algum inteligente ou que procura a Deus" e se, pelos anjos que nos foram designados, todas as coisas que fazemos são, cotidianamente, dia e noite, anunciadas ao Senhor, devemos ter cuidado, irmãos, a toda hora, como diz o Profeta no salmo, para que não aconteça que Deus nos veja no momento em que caímos no mal, tornando-nos inúteis, e para que, vindo a poupar-nos nessa ocasião porque é Bom e espera sempre que nos tornemos melhores, não venha a dizer-nos no futuro: "Fizeste isto e calei-me".
RB 7,31-33
segundo grau da humildade consiste em que, não amando a própria vontade, não se deleite o monge em realizar os seus desejos, mas imite nas ações aquela palavra do Senhor: "Não vim fazer a minha vontade, mas a d'Aquele que me enviou". Do mesmo modo, diz a Escritura: "O prazer traz consigo a pena e a necessidade gera a coroa".
Declaratio art. 66
66. A participação à cruz de Cristo a que somos chamados, consiste freqüentemente no seguinte :
- humilhar-se, fugir da vanglória e ambições egoístas;
- realizar bem o trabalho de todos os dias, que muitas vezes exigem de nós tantos sacrifícios que podem,
merecidamente, ser comparados com as austeridades da vida monástica antiga;
- ter paciência, pois ela nos permite suportar com bom espírito, as nossas enfermidades do corpo e da alma,
as fraquezas de nossas faculdades e o peso da vida comum;
- amar os nossos inimigos, os que nos perseguem e caluniam;
- aceitar a velhice e a morte, manifestando assim, o mais possível, a nossa fé e esperança na vida eterna.
RB 7,34
terceiro grau da humildade consiste em que, por amor de Deus, se submeta o monge, com inteira obediência ao superior, imitando o Senhor, de quem disse o Apóstolo: "Fez-se obediente até a morte".
Declaratio art. 67
67. Além disso, como no batismo prometemos resistir e renunciar a Satanás e a todas as suas pompas, queremos, na vida monástica, fugir do mundo enquanto este se acha sob o poder do demônio, renunciar aos desejos dos olhos, à concupiscência da carne e à soberba da vida. Essa fuga do mundo consiste primeiramente na renúncia interior ao espírito do século, que não tem esperança alguma de algo após a morte e nada valoriza mais do que os prazeres do corpo e do espírito.
A separação exterior do "mundo" - que se faz em graus diversos e de diversos modos em nossas comunidades - é um sinal e meio dessa renúncia interior.
RB 7,35-43
quarto grau da humildade consiste em que, no exercício dessa mesma obediência abrace o monge a paciência, de ânimo sereno, nas coisas duras e adversas, ainda mesmo que se lhe tenham dirigido injúrias, e, suportando tudo, não se entregue nem se vá embora, pois diz a
Escritura: "Aquele que perseverar até o fim será salvo". E também: "Que se revigore o teu coração e suporta o Senhor". E a fim de mostrar que o que é fiel deve suportar todas as coisas, mesmo as adversas, pelo Senhor, diz a Escritura, na pessoa dos que sofrem: "Por vós, somos entregues todos os dias à morte; somos considerados como ovelhas a serem sacrificadas". Seguros na esperança da retribuição divina, prosseguem alegres dizendo: "Mas superamos tudo por causa daquele que nos amou". Também, em outro lugar, diz a Escritura: "Ó Deus, provastes-nos, experimentastes-nos no fogo, como no fogo é provada a prata: induzistes-nos a cair no laço, impusestes tribulações sobre os nossos ombros". E para mostrar que devemos estar submetidos a um superior, continua: "Impusestes homens sobre nossas cabeças". Cumprindo, além disso, com paciência o preceito do Senhor nas adversidades e injúrias, se lhes batem numa face, oferecem a outra; a quem lhes toma a túnica cedem também o manto; obrigados a uma milha, andam duas; suportam, como Paulo Apóstolo, os falsos irmãos e abençoam aqueles que os amaldiçoam.
Declaratio art. 68
68. O amor à cruz e nossa decidida oposição ao espírito deste mundo não nos deve tornar indiferentes aos verdadeiros valores profanos, que devem ser postos a serviço do reino de Deus. Os valores técnicos, econômicos, sociais e culturais de modo algum nos são alheios, pois o seu cultivo tanto enriquece nossa vida como nos integra na comunidade da família humana.
RB 7,44-48
quinto grau da humildade consiste em não esconder o monge ao seu Abade todos os maus pensamentos que lhe vêm ao coração, ou o que de mal tenha cometido ocultamente, mas em lho revelar humildemente, exortando-nos a este respeito a Escritura quando diz: "Revela ao Senhor o teu caminho e espera nele". E quando diz ainda: "Confessai ao Senhor porque ele é bom, porque sua misericórdia é eterna". Do mesmo modo o Profeta: "Dei a conhecer a Vós a minha falta e não escondi as minhas
injustiças. Disse: acusar-me-ei de minhas injustiças diante do Senhor, e perdoastes a maldade de meu coração".
Declaratio art. 116
116. A Carta da Caridade estabelecia a visita anual a ser feita pelo Abade do mosteiro fundador ou por seu delegado, conforme a lei de filiação. Seu fim era afervorar e, quando necessário, corrigir fraternalmente na caridade. A visita anual era o eixo da estrutura jurídica da Ordem, muito apreciada por todos, mesmo fora da Ordem, e, sem dúvida, muito contribuiu para consolidar e promover a vida dos mosteiros.
O visitador, terminadas as consultas aos monges, pode, freqüentemente, dar ótimos conselhos ao Abade, despertar sua atenção para assuntos e problemas que talvez este não tenha percebido ou para outros cuja con-catenação e aspectos pessoais ele não veja com clareza. Caso o visitador perceba que no mosteiro são negligenciados os preceitos de nossa Ordem, esforce-se por corrigir com caridade, de acordo com o Abade Iocal.
A lei da filiação ainda vigora hoje em alguns lugares. Em lugar do antigo parentesco, quase natural, que a filiação representava, existe hoje, na maioria dos casos, a união dos mosteiros em Congregações, onde, geralmente, o visitador ordinário é o Abade Presidente da Congregação, exceto nos casos onde vigora a lei da filiação e onde as Constituições da respectiva Congregação regulam o assunto de outro modo.
RB 7,49-50
sexto grau da humildade consiste em que esteja o monge contente com o que há de mais vil e com a situação mais extrema e, em tudo que lhe seja ordenado fazer, se considere mau e indigno operário, dizendo-se a si mesmo com o Profeta: "Fui reduzido a nada e não o sabia; tornei-me como um animal diante de Vós, porém estou sempre convosco".
Declaratio art. 117
117. O fim das visitas ainda hoje é o mesmo de outrora, mesmo se o modo de realizá-las deva ser adaptado às novas situações. Sejam tais visitas realizadas freqüentemente, também hoje em dia, mesmo que não sejam canônicas, para atender a tempo as necessidades dos mosteiros. O visitador, evidentemente, não é um legislador, nem um "reformador", mas deve levar todos a um exame de consciência. A solução dos problemas dificilmente se faz por imposições, mas só por uma convicção interior. E isto exige muito, tanto do visitador como dos que são visitados. O visitador, cujo múnus é, antes de tudo, um serviço de caridade, esforce-se primeiramente por conhecer o estado psicológico da comunidade. Deverá também respeitar a legítima autonomia do mosteiro e os seus próprios fins, legitimamente aprovados, para que a visita traga ao mosteiro um verdadeiro incremento.
Os monges visitados devem abrir-se, com humildade e sinceridade, procurando verdadeiramente o bem das almas e o progresso da comunidade no serviço de Deus. Compreendam também os vários limites da visita, isto é, o legítimo âmbito dos assuntos dentro dos quais o visitador pode agir e as reais possibilidades de sua intervenção. Freqüentemente a visita não dá resultados por causa da inconsiderada e infundada esperança de muitos membros da comunidade, que, pedindo ao visitador coisas irrealizáveis, logo se declaram decepcionados.
RB 7,51-54
sétimo grau da humildade consiste em que o monge se diga inferior e mais vil que todos, não só com a boca, mas que também o creia no íntimo pulsar do coração, humilhando-se e dizendo com o Profeta: "Eu, porém, sou um verme e não um homem, a vergonha dos homens e a abjeção do povo: exaltei-me, mas, depois fui humilhado e confundido". E ainda: "É bom para mim que me tenhais humilhado, para que aprenda os vossos mandamentos".
RB 7,55
oitavo grau da humildade consiste em que só faça o monge o que lhe exortam a Regra comum do mosteiro e os exemplos de seus maiores.
RB 7,56-58
nono grau da humildade consiste em que o monge negue o falar a sua língua, entregando-se ao silêncio; nada diga, até que seja interrogado, pois mostra a Escritura que "no muito falar não se foge ao pecado" e que "o homem que fala muito não se encaminhará bem sobre a terra".
RB 7,59
décimo grau da humildade consiste em que não seja o monge fácil e pronto ao riso, porque está escrito: "O estulto eleva sua voz quando ri".
RB 7,60-61
undécimo grau da humildade consiste em, quando falar, fazê-lo o monge suavemente e sem riso, humildemente e com gravidade, com poucas e razoáveis palavras e não em alta voz, conforme o que está es-crito: "O sábio manifesta-se com poucas palavras".
RB 7,62-70
duodécimo grau da humildade consiste em que não só no coração tenha o monge a humildade, mas a deixe transparecer sempre, no próprio corpo, aos que o vêem, isto é, que no ofício divino, no oratório, no mosteiro, na horta, quando em caminho, no campo ou onde quer que esteja, sentado, andando ou em pé, tenha sempre a cabeça inclinada, os olhos fixos no chão, considerando-se a cada momento culpado de seus pecados, tenha-se já como presente diante do tremendo juízo de Deus, dizendo-se a si mesmo, no coração, aquilo que aquele publicano do Evangelho disse, com os olhos pregados no chão: "Senhor, não sou digno, eu pecador, de levantar os olhos aos céus". E ainda, com o Profeta: "Estou completamente curvado e humilhado".
Tendo, por conseguinte, subido todos esses degraus da humildade, o monge atingirá logo, aquela caridade de Deus, que, quando perfeita, afasta o temor; por meio dela tudo o que observava antes não sem medo começará a realizar sem nenhum labor, como que naturalmente, pelo costume, não mais por temor do inferno, mas por amor de Cristo, pelo próprio costume bom e pela deleitação das virtudes.
Eis o que, no seu operário, já purificado dos vícios e pecados, se dignará o Senhor manifestar por meio do Espírito Santo.
Declaratio art. 10
10. A fonte mais importante e mais rica de nossa vida é a ação e a inspiração do Espírito Santo em nós. Cremos firmemente que o Espírito Santo opera em nós e nos inflama o coração para melhor conhecermos a vontade de Deus e mais prontamente segui-Ia. Nada nos é tão necessário como visualizar com lealdade, sob a luz do Espírito Santo, a nossa vida e a nossa vocação e atender solicitamente as suas inspirações. Sua operação, embora misteriosa, manifesta-se principalmente na fraterna concórdia dos membros de uma comunidade que sinceramente procuram conhecer a vontade de Deus e criar formas adequadas e dignas do serviço de Deus. Uma troca de idéias nobre e aberta, uma sincera deliberação em comum, a cooperação responsável de todos os membros são os meios principais através dos quais se manifestam a ação e a inspiração do Espírito Santo.
Capítulo 8 Dos Ofícios Divinos durante a noite
RB 8,1-4
m tempo de inverno, isto é, de primeiro de novembro até a Páscoa, em consideração ao que é razoável, devem os monges levantar-se à oitava hora da noite de modo que durmam um pouco mais da metade da noite e se levantem tendo já feita a digestão. O tempo que resta depois das Vigílias seja empregado na preparação de algum trecho do saltério ou das lições, por parte dos irmãos que disto necessitarem. Da Páscoa, porém, até o referido dia primeiro de novembro, seja regulada a hora de tal maneira que as Matinas que devem ser celebradas quando começa a clarear, venham em seguida ao ofício das Vigílias, depois de brevíssimo intervalo, durante o qual os irmãos saem para as necessidades naturais.
Declaratio arts. 18-21
18. Nossa Ordem - como toda pessoa física e moral - conserva em si o seu passado, carrega a hereditariedade e o peso, não só de sua história, nas origens de Cister, mas também da história de todo o monaquismo, cujas raízes remontam aos primeiros séculos do cristianismo. Será, por isso, útil, recordar brevemente as principais etapas da história do monaquismo e a importância de cada uma delas22.
19. As formas primitivas da vida monástica existiam desde os primeiros tempos da Igreja (confessores e virgens, a cuja vida alguns dão o nome de "monaquismo doméstico"). No século lII, além da citada forma, aparecem os anacoretas e cenobitas em toda a Igreja e, desde o século IV foram escritas regras para estatuir a vida das novas instituições monásticas e para transmitir as experiências dos "Pais espirituais". Mas o Evangelho
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22 Veja-se A. VEILLEUX, Évolution de la vie religieuse dans son contexte
historico-spirituel, Collectanea Cisterciensia 32 (1970) 129-154. Versão inglesa: The Evolution of the
Religious Life in the Historical and Spiritual Context, Cistercian Studies 6 (1971) 8-34.
permanecia a "Regra não regulamentada", à qual todas as regras se submetiam23.
20. Entre essas regras, ocupa lugar de destaque a Regra de São Bento. O Sto. Patriarca resume na sua "mínima regra de iniciação"24 as outras regras - Segundo ela, o mosteiro é a "escola do serviço do Senhor"25, na qual a comunidade, sob a paternidade do Cristo26, do qual o Abade faz as vezes, guiada pelo Evangelho, trilha o caminho dos mandamentos de Deus, no serviço fraterno, no equilíbrio harmônico do Opus Dei, da lectio divina e do trabalho, além de outros exercícios.
21. A Regra, que diz respeito à ordem das atividades no interior do mosteiro, recebe um certo complemento da "Vida de São Bento", que nos é narrada nos Diálogos de São Gregório. Embora não seja estritamente histórica em todos os detalhes27, revela-nos como segundo a tradição o próprio Patriarca acolhia os que vinham ao mosteiro e como procedia fora do claustro. Com efeito, S.Gregório conta-nos que S.Bento, "com perseverante pregação, instruiu na fé a multidão dos que viviam na sua vizinhança" e que também enviou seus monges à aldeia vizinha "para exortar os fiéis"28.
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23 Esta constatação é muito importante, porque, por exemplo, se tem
descrito a Regra de s. Bento como um «compêndio de Evangelho para os monjes». Sobre isto
o Abade A. Veilleux, na consideração 22 de seu artigos citados, dice: «...la Règle...condensé de
l'Évangile. En réalité, une telle expresión est fort équivoque. Ceux qui l'emploient donnent facilment
l'impression de croire que l'auteur de la Règle y aurait ramassé tout ce qui, dans l'Évangile, est utile
aux moines, de sorte que ceux-ci puissent se dispenser de recourir directement à l'Éscriture. Ce serait
là une grossière erreur. Le rôle de la Règle n'est pas de remplacer l'Évangile, mais d'y conduire et d'aider
à en comprendre les exigences» (loc. cit., p. 198).
24 RB 73, 8.
25 RB, Prol. 45.
26 RB, Prol. 21 e 49.
27 Veja-se C. LAMBOT, La vie et les miracles de S. Benoït racontés
par S. Grégoire le Grand, Revue Liturgique et Monastique 19 (1933-1934) 137-165.
28 S. GREGÓRIO o GRANDE, Dialogorum Liber II, cap. 8 (PL 66,
col. 152) y cap. 19 (PL 66, col. 170). Veja-se também uma boa edição com tradução castelhana em San Benito.
Su vida y su Regla, obra já citada, p. 133-239. A. DE VOGÜÉ publicou a edição crítica na coleção
Sources Chrétiennes, 21, 260 y 265 (Paris 1978-1980).
Capítulo 9 Quantos salmos devem ser ditos nas Horas noturnas
RB 9,1-10
o tempo de inverno acima citado, diga-se em primeiro lugar o versículo, repetido três vezes: "Senhor, abrireis os meus lábios e minha boca anunciará vosso louvor", ao qual deve ser acrescentado o salmo terceiro e o "Glória". Depois desse, o salmo nonagésimo quarto, com antífona, ou então cantado. Segue-se o Ambrosiano e depois seis salmos com antífonas. Recitados esses e dito o versículo, o Abade dê a bênção; depois, achando-se todos sentados nos bancos sejam lidas pelos irmãos, um de cada vez, três lições do livro que está sobre a estante. Entre elas cantem-se três responsórios. Dois destes responsórios são ditos sem "Glória", porém, depois da terceira lição, quem está cantando diga o "Glória". Quando esse começar, levantem-se logo todos de seus assentos em honra e reverência à Santíssima Trindade. Leiam-se, nas Vigílias, os livros de autoria divina, tanto do Antigo como do Novo Testamento, e também as exposições que sobre eles fizeram os Padres católicos conhe-cidos e ortodoxos. A essas três lições com seus responsórios, sigam-se os seis salmos restantes cantados com "Aleluia". Vêm, em seguida, a lição do Apóstolo, que deve ser recitada de cor, o versículo e a súplica da litania, isto é, "Kyrie eleison", e assim terminem as Vigílias noturnas.
Declaratio art. 22
22. A Regra de S. Bento não era a única e não era universalmente observada até o tempo de S.Bento de Aniano (época "regulae mixtae"). Nessa época, no entanto, ela é adotada, paulatinamente, em quase todos os mosteiros do lmpério de Carlos Magno. Com isto, apareceu certa uniformidade de vida no monaquismo ocidental, que pode ser chamado de "Beneditino" .
Os Sínodos dos séculos IX a X, esforçaram-se por distinguir, claramente, os monges dos cônegos regulares, mas com pouco resultado, pois crescia sempre mais o número de monges que recebiam os ordens sacras e assim
passavam para o estado clerical, enquanto os cônegos regulares ordenavam a própria vida pelos usos monásticos. Ainda mais; o monaquismo dos séculos X e XI, perdendo a simplicidade da vida monacal, aumentava a duração e os elementos dos atos litúrgicos na vida monástica, de modo que se perdeu inteiramente o equilíbrio entre a oração e o trabalho29.
Capítulo 10 Como será celebrado no verão o louvor divino
RB 10-1-3
a Páscoa até primeiro de novembro, mantenha-se, quanto à salmodia, a mesma medida acima determinada; as lições do livro, porém, por causa da brevidade das noites, não são lidas; em lugar dessas três lições, seja recitada de memória uma do Antigo Testamento, seguida de responsório breve, e cumpram-se todas as outras coisas como ficou dito acima, isto é: que nunca se digam nas Vigílias noturnas, menos de doze salmos além do terceiro e do nonagésimo quarto.
Declaratio art. 23
23. No decorrer, no entanto, do século XI, apareceram novos movimentos espirituais entre os monges (e os cônegos), com o fim de retornar à verdadeira pobreza evangélica, ao trabalho manual, à pureza da Regra e às autênticas fontes do monaquismo antigo.
Cister foi fundada para tal fim. Os fundadores do "Novo Mosteiro" restabeleceram o equilíbrio entre a vida litúrgica e o trabalho, embora não tivesse voltado à letra da Regra - do todo. Realmente, várias funções
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29 Veja-se Ph. SCHMITZ, L'influence de Saint Benoît d'Aniane dans
l'histoire de l'Ordre de Saint Benoît, en Il monachesimo nell'alto medioevo a la formazione della civiltà
occidentale (Centro Italiano di Studi sull'Alto Medioevo, Spoleto 1957) 401-415, asim como La liturgie
de Cluny, en Spiritualità Cluniacense (Todi 1060) 84-99, e especialmente a p. 89: «Si nous
faisons le bilan de la journée liturgique à Cluny, nous arriverons à un résultat surprenant: avec la quarantaine
de psaumes de l'office prescrit par S. Benoît, la communauté a récité, en un seul jour, quelque 215
psaumes...».
litúrgicas, desconhecidas no tempo de S. Bento, e posteriormente introduzidas (como, por exemplo, a missa conventual cotidiana) foram conservadas e mudaram, assim, a ordem do dia. Receberam, além disso, os irmãos conversos, porque diziam ser-lhes impossível, sem eles , "observar os preceitos da Regra dia e noite"30. Isto atesta que eles mesmos compreendiam então a Regra em muitos pontos, não no seu sentido histórico do século VI, mas conforme os comentários posteriores.
Os mosteiros fundados por Cister e suas filiais foram, desde o início, abadias independentes, unidas entre si, conforme estabelecia a Carta da Caridade. Seus abades reuniam-se anualmente em Cister para o Capítulo Geral, a fim de promover o bem espiritual dos monges a eles confiados.
Desde os primeiros decênios do século XII, os abades da nossa Ordem promoveram fundações de mosteiros de monjas e lhes prestaram ajuda para que pudessem orientar a própria vida. Até o ano de 1184, os mosteiros masculinos e femininos, estavam sob a jurisdição dos bispos. Após ter obtido a isenção, muitos mosteiros de monjas foram incorporados à Ordem.
No início, as abadessas fundadoras visitavam regularmente as abadias por elas fundadas e estas celebravam os próprios capítulos. No entanto, por causa de lei da clausura, que na Idade Média se tornou cada vez mais rigorosa, principalmente para as monjas, a visita passou a ser feita pelo pai imediato e os capítulos das Abadessas, porém, não se celebraram mais.
Capítulo 11 Como serão celebradas as Vigílias aos domingos
RB 11, 1-13
os domingos, levante-se mais cedo para as Vigílias, nas quais se mantenha a mesma medida já referida, isto é: modulados, conforme dispusemos acima, seis salmos e o versículo, e estando todos convenientemente e pela ordem assentados nos bancos, leiam-se no livro, como já
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30 Exordium Parvum, XV.