XIII SÍNODO ORDINÁRIO DA ORDEM CISTERCIENSE












PARTIR DO EVANGELHO PARA DAR PRIORIDADE
À PASTORAL VOCACIONAL














Roma, 24-30 de setembro de 2002



















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Intervenção de Secretário da Congregação para o Clero
S.E.R. Mons. Csaba Ternyák






Querido Abade Geral, queridos Abades e Pais e Mães Sinodais,

1.

antes de tudo, saúdo a todos vocês, nesta Assembléia Sinodal que os reúne de todas as partes do mundo, também para confrontar hoje um tema que é realmente de importância crucial para o futuro de vossa Ordem Cisterciense, como o é para toda a Igreja, ou seja, o da pastoral vocacional.
Para tratar esse assunto, o Abade Geral me convidou a participar do Sínodo e dar uma contribuição de reflexão que, de bom grado, em nome da Congregação para o Clero, ofereço a todos vós com a esperança de que também minhas palavras possam servir de estímulo e ajuda.
Indubitavelmente, a pastoral vocacional é um âmbito central na dinâmica pastoral da Igreja, que sempre tem privilegiado este delicado aspecto de sua vida eclesial em que somos chamados a comprometer renovadas e tenras energias espirituais, que o Espírito Santo sempre põe à disposição daqueles que crêem na extraordinária eficácia do Evangelho, tendo a intenção de obedecer à Palavra de Cristo, viva e eterna, que, confiada à Igreja, é transmitida inalteradamente já há dois mil anos de ininterrupta Tradição.
Dou graças a Deus por encontrar-me entre vocês para receber e oferecer um bom ânimo que nos faça olhar adiante, ao Duc in altum, e encontrar juntos o impulso para imprimir um estímulo ao trabalho pastoral a ser realizado no campo vocacional. Se por um absurdo não o fizéssemos, não seríamos imitadores daquele Jesus de Nazaré, que da pastoral vocacional fez uma de suas prioridades de apostolado. Precisamente o Santo Padre João Paulo II relançou, com repetidos


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chamados durante seu Pontificado, o convite em favor de uma renovada pastoral das vocações.
Penso, neste momento, em tudo quanto ele escreveu na Pastores dabo vobis; precisamente sobre o exemplos que nos deu o Senhor Jesus, e, testemunhando pelo Evangelho, a Igreja é chamada "a decifrar e recorrer ao dinamismo próprio da vocação, seu gradual e concreto desenvolvimento nas fases de buscar a Jesus, segui-lo, e de permanecer com Ele. A Igreja toma deste "Evangelho da vocação" o paradigma, a força e o impulso de sua pastoral vocacional, ou seja, de sua missão destinada a cuidar do nascimento, do discernimento e do acompanhamento das vocações, em particular das vocações ao sacerdócio. Precisamente porque "a falta de sacerdotes é certamente a tristeza de toda Igreja", a pastoral vocacional exige, principalmente hoje, ser tomada pelo novo, vigoroso e mais decidido compromisso por parte de todos os fiéis, conscientes de que ela não é um elemento secundário ou acessório, nem um momento isolado ou parcial" (PDV, n. 34).
Quisera partir dessa reflexão para traçar algumas pistas de percurso que nos sirvam para dirigir nossa atenção a nos conscientizarmos de que a pastoral vocacional "não é um elemento secundário ou acessório, nem um momento isolado ou setorial", como afirmou o Papa, mas que "exige, principalmente hoje, ser tomada com um novo, vigoroso e mais decidido compromisso".
É também o que nos propomos fazer nós, conscientes do mandato apostólico de Sua Santidade, dado à Igreja, no começo do Novo Milênio com aquele duc in altum (Lc 5,4), que se atualiza também nesta tão qualificada Assembléia.
Com a intenção de provar no fogo também a situação da pastoral vocacional no interior de vossa Ordem, entrais na dinâmica pastoral do Duc in altum, que é um convite a desenrolar velas ao sopro do Espírito Santo, para lançar, com mais profundidade e distância, as redes da Igreja, cumprindo assim o mandato de Cristo ressuscitado que, antes de subir ao Céu, recomenda aos seus: "ide, pois, e ensinai a todas as nações, batizando-as em nome do Pai, do Filho e do Espírito Santo, ensinando-lhes a observar tudo o que vos ensinei. Eis que estou convosco todos os dias até o fim do mundo" (Mt 28, 19-20).

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Não teria sido possível cumprir tal mandado universal sem que aqueles discípulos tivessem sido antes chamados pelo nome a seguir Jesus, e sem que todos os outros, depois deles, não houvessem escutado e acolhido o mesmo e fascinante chamado do mestre: "Segue-me" (Mt 9,6).
Se levamos ao coração do ministério ordenado a beleza da vida contemplativa e apostólica, que emana da opção radical de um esponsal, expressa através dos votos religiosos, se temos no coração o mesmo coração da vida cristã, que é eminentemente eucarístico, isto é, consagrado eternamente à glória de Deus e à salvação das almas, é impensável um futuro cada vez com menos sacerdotes, com menos vocações à vida consagrada, onde resplandece sempre débil nos horizontes eclesiais, aquela luz que é, ao contrário, de particular beleza e fascinação irresistível para que seja irradiação de uma vida eternamente consumida pelo seguimento de Cristo.
Uma tal perspectiva não pode ser absolutamente levada em consideração como João Paulo II sublinhou tantas vezes, inclusive por ocasião da última reunião Plenária da Congregação para o Clero, quando, a propósito da falta de vocações ao sacerdócio, e do clima de resignação que às vezes ela gera, ele falou de "erro fatal": "Seria um erro fatal resignar-se às atuais dificuldades e comportar-se de fato como se devêssemos nos preparar para uma Igreja do amanhã imaginada quase privada de sacerdotes"! (João Paulo II à Plenária da Congregação para o Clero, 23 de novembro de 2001).

2.

À resignação, ao desânimo, ao abatimento, deve-se contrapor uma dinâmica de pastoral vocacional verdadeiramente prioritária; não há espaço no coração de um cristão para mancar diante das dificuldades.
Por desgraça, há alguns decênios, em nossa sociedade vai-se desenvolvendo o fenômeno que se alastra como uma mancha de óleo, principalmente entre os jovens, que é o fenômeno cultural do "sem sentido", do "vazio", de uma cultura que João Paulo II chama "cultura da morte". Essa contribui não pouco para a criação de um clima sombrio, às vezes verdadeiramente opressivo, que pesa sobre nossa existência humana, como se vivêssemos sob um céu escurecido por

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mil nuvens ameaçadoras, que impedem a penetração da luz e do calor do sol.
Essa cultura tão difusa produziu no homem uma mentalidade que cada vez mais se tinge de materialismo, de niilismo, de hedonismo, de relativismo e de tantos outros "ismos" que não vêm ao caso elencarmos aqui. Ideologias sem Deus que freqüentemente proclamaram a morte de Deus, implicitamente ou explicitamente, e que em troca conduziram à "morte do homem". Quanto mais alguém se afasta de Deus, tanto mais se precipita no interior daquele vazio provocado pelo próprio homem, que chega inclusive a querer afastar Deus do próprio coração, negando-lhe o direito de cidadania. Talvez também nós, seja como cristãos individualmente, seja como comunidade, temos às vezes subestimado a emboscada dessa cultura secularizada. Temos pensado que de uma certa maneira seria possível domesticá-la, ou talvez tenhamos esperado que seu horizonte não nos ocultaria totalmente o transcendente e que os valores fundamentais não seriam afogados por ela, como na realidade aconteceu e progressivamente acontece. O mundo em que vivemos, como nos ensina a Gaudium et Spes, é um mundo que "se apresenta hoje poderoso e às vezes débil, capaz de realizar o melhor e o pior, enquanto se lhe abre o caminho da liberdade ou da escravidão, do progresso ou do regresso, da fraternidade ou do ódio" (GS, n. 9).
Assistimos então, às vezes, digamos bem claro, passivamente ao crescimento de modelos culturais absolutamente em contraste com o Evangelho.
Pensemos, somente para dar um exemplo, na publicidade moderna que cada vez mais se difunde através dos meios de comunicação e que expõe a figura do religioso e da religiosa, ridicularizando-a a ponto de fazer deles palhaços, ou apenas um jogo publicitário. E o que pensar quando é Deus mesmo que é atingido por filmes publicitários? É inútil dizer quanto e que influxo esta publicidade exerce sobre o coração dos jovens. Os mestres da comunicação sabem bem quão decisiva é para a venda de um produto a publicidade, que por sua vez se faz veículo de mensagens freqüentemente ambíguas.
Permiti-me dar esse exemplo porque, com efeito, o incidir rápido e fraudulento de uma tal cultura com seus valores, ou melhor dizendo,

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antivalores, veiculada de forma massiva pelos meios de comunicação de massa, é tal como se nos tivesse desprezado.
Quando uma torrente se precipita no vale e se faz rio em plena extensão, se os diques não o freiam, arrastará sem piedade, pela violência de sua paixão, o que encontrar pelo próprio caminho. Talvez não tenhamos construído suficientes diques diante de nós, aptos a salvaguardar aqueles ambientes cristãos que, com o cansaço de decênio após decênio, haviam sido edificados pelas gerações de crentes que nos precederam.
Minha análise, longe de ser pessimista e menos ainda resignada, quer ser simplesmente a constatação de uma realidade que podemos ler com certa facilidade nos sinais de nossos tempos. Isto não nos impedirá certamente de tomar o Duc in altum, mas é bom recordar que nossa navegação sobre o mar da história deste período, ao cabo de dois milênios, é um navegar não sobre águas tranqüilas, mas agitadas. O importante então é ter bem seguro o timão e soltar as velas na direção certa.
Precisamente o carisma do Vigário de Cristo, de confirmar na fé os irmãos (Lc 22,32), como timoneiro na grande nave que é a Igreja, nos tem sido particularmente de ajuda com o documento Novo Millennio Ineunte, que deveria representar uma espécie de carta de navegação no agitado mar de nossa civilização.

3.

O Senhor Jesus, no Evangelho, usa uma expressão muito forte para caracterizar tempos tempestuosos, que estão muito distantes d'Ele e que os Papas destes últimos decênios têm pego novamente e citado muitas vezes, quase vislumbrando naquela pregação de Cristo uma certa realização no interior da história de nosso tempo.
Refiro-me à célebre e misteriosa expressão; "O Filho do homem, quando voltar, encontrará ainda fé sobre a terra"? (Lc 18,8).
Quisera crer que a razão última da diminuição de vocações e de uma certa debilitação da vida cristã em geral, como no Continente Europeu - onde em outros tempos o cristianismo era tão florescente de vocações - resida precisamente no fato de que nossa fé tenha tido momentos de debilidade, tenha sofrido com uma espécie de

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paralisação, como se tivéssemos medo de que o poder de Cristo e do Evangelho não consiga contrapor-se ao mundo, a suas provações e a seu forte poder de persuasão.
Penso no episódio evangélico onde Jesus dorme na barca, enquanto o mar está embravecido, e penso também nos apóstolos que, assustados, desconfiam da presença providente do Senhor (Mt 8,24-27). Em tão breve espaço de tempo, quase esquecem todos os milagres vistos e os benefícios recebidos do Salvador e o mesmo poder ilimitado que Ele tem sobre a natureza. No temor de afundar, levados por aquelas ondas impetuosas, começam a gritar, não se dão conta de implorar ao Mestre, mas o censuram (Mt 4,38), como se tivessem angústia de não ser mais escutados, como se agora tudo já estivesse perdido.
Também nós diante das altas ondas dos desafios do tempo presente que brilham implacáveis sobre nossa barquinha e parecem superar-nos, estamos tentados a abandonar a esperança, a nos deixarmos levar por uma análise fria e puramente sociológica, de uma situação, a da descristianização, que parece assumir as características de irreversibilidade; diante da diminuição das vocações, diante do envelhecimento progressivo do Clero, diante da não suficiente troca de forças tenras e de novas colunas de consagrados no interior das Ordens, gloriosas como a vossa, sentimo-nos desprezados, chegando inclusive a pensar, como os apóstolos angustiados, que talvez venhamos a naufragar.
Sim, por certo afundaríamos se o Senhor não estivesse conosco, mas Ele nos prometeu: "Eu estou convosco todos os dias até o fim do mundo" (Mt 28,20).
"Eu estou convosco sempre". Sim, Ele está sempre conosco, mas é verdade que também nós estamos sempre com Ele? É o que o Senhor desaprova nos discípulos assustados com aquele mar em tempestade: "Por que temeis? Por acaso não tendes fé?" (Mt 4,40). E, em outra ocasião, lhes diz: "Se tivésseis a fé do tamanho de um grão de mostarda, poderíeis dizer a esta árvore: "arranca as raízes da terra e vai plantar-te junto ao mar'. E ela vos escutaria" (Lc 17,6).
Vejamos nesse testemunho do Evangelho, como em tantos outros, que há uma íntima conexão entre a fé em Cristo e a oração, entre o crer n'Ele e o ficar junto a Ele. A fé se manifesta através da oração,

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que por sua vez nutre a fé do que ora. Uma fé que não se fizesse oração confiada, diálogo de amor com Deus, ficaria estéril, enquanto que uma fé que se faz oração é fecunda de todo tipo de frutos espirituais, entre os quais as vocações.
É um fato que podemos constatar facilmente em nossas realidades cristãs: onde diminui a fé, diminui a oração, e vice-versa! Há, com efeito, entre fé e oração, uma espécie de relação de causa-efeito e efeito-causa.
Em outras palavras, também a oração, como insinuei antes, se faz causa de uma fé robusta. Eis porque, em um certo ponto, os discípulos, fascinados pela irradiação da pessoa de Jesus que orava e, conscientes de sua incredulidade, suplicavam ao Senhor Jesus: "ensina-nos a orar" (Lc 11,1).

4.

Precisamente, poderíamos dizer que sobre as vocações se mede, em certo sentido, o vigor de nossa fé e de nossa oração. Isso não pode, por certo, chegar a ser um paradigma absoluto, mas, se olhamos o Evangelho, não podemos deixar de constatar essa estreita relação. O Evangelho pede, com efeito, a solicitude de nossa oração - e por conseguinte de nossa obediência de fé - para a realização do mandamento do Senhor, que é como o coração de toda pastoral vocacional: "Orai, pois, ao Senhor da messe" (Mt 9,38).
Se faltam operários para a messe, se nossas comunidades, que antes eram florescentes, hoje vacilam por causa da escassez das vocações, então devemos ter humildade para reconhecer que houve algo entre nós que não funcionou, que a união admirável "fé-oração" deve ser restabelecida em níveis originais.
Há também a tentação de atribuir a causa da escassez de vocações ao Espírito Santo, como se o Senhor quisesse guiar a Igreja por outro caminho, e nós estivéssemos já convencidos disso de tal maneira que já não iniciamos nada ou quase nada para promover as vocações. Esse "erro fatal" leva a considerar a pastoral vocacional já não mais prioritária, porém até secundária, inclusive no âmbito da pastoral juvenil.
Em vinte séculos de cristianismo que temos em nossas costas, o florescer das vocações tem sido sempre o sinal de vitalidade e de

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conseqüente crescimento da comunidade cristã, do vigor no autêntico espírito eclesial e de bênção do Céu. A essas comunidades cristãs era bem clara a relação direta que há entre a fé e a oração pelas vocações, que só o Espírito Santo é capaz de suscitar em seu interior, segundo o prometido por Jesus no Evangelho.
O Santo Padre João Paulo II chama nossa atenção a esse dado, que não pode ser absolutamente esquecido ou tido em pouca consideração, se queremos partir novamente de Cristo para a promoção de uma eficaz pastoral vocacional: Ele nos diz que "toda a comunidade deve procurar suas vocações, como sinal de sua vitalidade e maturidade".
Permito-me citar, mais amplamente, essa intervenção do Sumo Pontífice diante dos Bispos colombianos, em visita ad limina no ano de 1985, na qual ele evoca algumas passagens do decisivo encontro de Puebla de 1979, entre os quais aqueles centrados sobre as vocações.
"Sem dúvida esse florescer das vocações é fruto da oração humilde, confiada e perseverante. Por isso, Cristo, depois de haver contemplado o vasto campo, a abundância das messes e a escassez dos operários, nos mandou: 'Orai ao dono da messe para que envie operários à sua messe' (Lc 10,2). É assim que vossas Igrejas diocesanas puseram em prática a exortação de Puebla (nº 882) de promover campanhas de oração conscientes de que 'a vocação é a resposta de Deus providente à comunidade orante'. Essa resposta é também o fruto de uma pastoral vocacional renovada, dinâmica, inserida na pastoral em seu conjunto, que leva a convencer toda a comunidade cristã de seu dever no campo vocacional': 'Toda a comunidade deve procurar suas vocações como sinal de sua vitalidade e maturidade" (Puebla, discurso inaugural).
Esse compromisso comunitário de orar pelas vocações, que o Papa chama "campanha de oração", realizaram-no bem os Bispos da América Latina. Por exemplo, no México, há dez anos, depois de cada Missa, reza-se em todas as partes uma especial oração para pedir a Deus novas e santas vocações. Tal devoção era já estabelecida nessa nação, mas depois da visita do Papa em 1979, essa oração difundiu-se em cada paróquia, em cada mosteiro, em cada comunidade cristã. A tal oração o Santo Padre, como dissemos, atribui o florescer das vocações naquele Continente, que não é por

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casualidade chamado o Continente da esperança, também por causa desse florescer.

5.

Chegando a este ponto, permito-me referir-me, como disse antes, à Carta Apostólica Novo Millennio Ineunte, que indica à Igreja o caminho a seguir para navegar na direção certa, neste mar inquieto do tempo em que vivemos.
O Papa os faz com precisão, tomando como ícone de reflexão, o célebre episódio dos discípulos que foram de novo pescar depois de não haverem pescado nada (cf. Lc 5,5).
Estamos de novo, queridos amigos, sobre o mar, ou melhor dizendo, sobre o Lago de Tiberíades. Escutemos o que nos diz João Paulo II como comentário a esse milagre realizado por Jesus, onde encontraremos aquela vital conjunção entre fé e oração de que falava antes. Vale verdadeiramente a pena ler este parágrafo n. 38 da Carta Apostólica, na ótica e na dinâmica da reflexão de hoje sobre a pastoral vocacional.
"Certamente Deus nos pede uma real colaboração com a sua graça, e portanto, nos convida a investir, em nosso serviço pela causa do Reino, todos os nossos recursos de inteligência e operatividade. Ai de nós, porém, se esquecemos que 'sem Cristo não podemos fazer nada' (Jo 15,5). A oração nos faz viver precisamente essa verdade. Ela nos recorda constantemente o primado de Cristo e, em relação a Ele, o primado da vida interior e da santidade. Quando esse princípio não é respeitado, podemos nos maravilhar se os projetos pastorais vão ao encontro do fracasso e deixam o ânimo de um desalentador sentido de frustração? Façamos então a experiência dos discípulos no episódio evangélico da pesca milagrosa: 'Trabalhamos durante toda a noite e não pescamos nada' (Lc 5,5). É aquele o momento da fé, da oração, do diálogo com Deus, para abrir o coração à graça e consentir à Palavra de Cristo passar através de nós com toda a sua potência: Duc in altum! Foi Pedro, naquela pesca quem disse a palavra de fé: 'Porque tu mandas, lançarei as redes' (ibid.). Consentiu ao sucessor de Pedro, neste início de milênio, convidar toda a Igreja a esse ato de fé, que se expressa em um renovado compromisso de oração" (João Paulo II, Novo Millennio Ineunte, nº 38).
São palavras fortes e claras como convém a essas mensagens que estão

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destinadas a marcar o passo do povo de Deus a caminho, que é introduzido no Novo Milênio por esse chamado central do Vigário de Cristo que convida "toda a Igreja a esse ato de fé, que se expressa em um renovado compromisso de oração".
Aquele que ostenta o Primado da verdade na Igreja é também aquele que nos recorda outro primado, o da oração que "nos faz viver precisamente esta verdade (ou seja, que 'sem Cristo não podemos fazer nada'). Ela nos recorda constantemente o primado de Cristo e, em relação a ele, o primado da vida interior e da santidade". Quando os princípios fundamentais que estão debaixo de toda a lei ou disciplina de governo, ou de qualquer sistema organizado, etc. não são respeitados, então sobrevém o caos, a desordem, a confusão.

6.

A propaganda decisiva que a Novo Millennio Ineunte faz com relação ao retorno da aplicação dos princípios fundamentais do Evangelho é límpido e simples. Não devemos andar em círculos, duvidando, mas segui-Lo, precisamente como os Apóstolos fizeram, depois do fracasso de sua pesca sem peixes, obedecendo à ordem de seu mestre, permitindo, como disse o Papa, que "a Palavra de Cristo passe através deles com toda a sua potência: Duc in altum"! Só assim a sua e a nossa pesca se faz cheia de peixes.
Às vezes, a palavra da Verdade não consegue passar através de nossos corações porque os encontra obstruídos, ou endurecidos. Quando no coração físico se cria uma obstrução nos condutos vitais, pelos quais passa o sangue, então há um black-out, produz-se o infarto e pode chegar à morte. Quando o coração espiritual do crente se fecha à passagem da Palavra de Cristo, desobedecendo-lhe, então há um black-out do espírito, paralisa-se a vida interior, porque o princípio "obediência de fé" não foi respeitado.
Também para os apóstolos havia o risco de que sua mentalidade, suas opiniões e experiências lhes induzissem à tentação de resistir à Palavra de Jesus, principalmente quando sua Palavra se fazia exigência de uma fé maior, por uma lógica de todo divina que escapa à lógica humana, e que, além disso, às vezes a escandaliza.
Recordo aqui o famoso Sermão Eucarístico de Cafarnaum quando,

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poderíamos dizer, realizou-se o primeiro cisma na comunidade daqueles que seguiam a Jesus. Muitos se foram por outro caminho (Jo 6, 66), preferindo manter suas rígidas posições intelectuais, suas frias lógicas diante das provocantes palavras de Cristo sobre a Eucaristia, cheias de luz deslumbrante para a miopia humana.
O Evangelho nos diz que estes discípulos estavam convencidos de que a linguagem de Jesus foi demasiado dura (Jo, 6,60); era, porém, verdadeiramente o contrário: seu coração se havia endurecido, obstruído pelo orgulho intelectual que não estava disposto a retroceder e admitir que quis construir mais sobre si mesmo e sobre os próprios recursos humanos do que sobre Cristo. Quando o primado de Cristo não é respeitado, o homem descarrila do caminho que o conduz à verdade e vai por seus caminhos que não conduzem a nada.
Pedro teve coragem de fazer-se seguidor, o vimos diversas vezes no Evangelho. Também em Cafarnaum teve a coragem da verdade, ou seja, da humildade de reconhecê-la e de testemunhá-la com a vida: "Senhor, a quem iremos? Tu tens palavras de vida eterna e nós temos acreditado e reconhecido que tu és o santo de Deus" (Jo 6,68-69).
Queridos amigos e irmãos no sacerdócio de Cristo, imaginar um futuro produzido por uma esterilidade espiritual, que se faz mais visível com o advento de menos vocações, não estaria, por certo, em sintonia com o Espírito Santo que é, ao contrário, fecundidade, gôzo de vida dada livremente Àquele de quem se recebeu a liberdade mesma de dá-la.
Se há uma tristeza que nos é consentida no âmbito da pastoral vocacional, diria que é somente aquela que pode ter experimentado Jesus diante do jovem rico que recusa um amor maior (Mc 10,12). Jesus o vê ir embora triste porque, apesar do amor revelado àquele jovem, através do chamado divino ao seguimento de Cristo, o egoísmo retirou a melhor parte. Também ele foi embora triste em seu caminho porque era rico (Mc 10,22b), deu as costas a Jesus e retirou-se.

7.

Até aqui refletimos, em um plano eminentemente espiritual, sobre a importância da fé e da oração no campo vocacional. Agora quisera, brevemente, chamar a atenção também sobre um plano prático de algumas perguntas funcionais que nos poderíamos pôr neste ponto e que em certo sentido se impõem.

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Com efeito, ao lado do esforço de uma fé mais viva e de uma oração mais profunda estendida a toda comunidade para obter de Deus numerosas e santas vocações, deve-se também dirigir a atenção ao aspecto, diria, apostólico-missionário. Como nos aproximamos dos jovens, que entusiasmo, alegria, amor por nossa vocação lhes testemunhamos? Estamos convencidos até o fundo de que não se pode transmitir o que não se tem? Como poderíamos pretender colher frutos onde não se tenha semeado?
Há muitos, vários jovens, que crêem hoje sem quase nenhuma noção elementar de catequese, de instrução religiosa de base, antigamente muito mais acessível do que nos tempos atuais. É inimaginável pensar que um jovem que não sabe nada de Cristo, possa entrar em um convento sem uma intervenção especial que Deus reserva somente a poucos.
Dos pregadores, das missões populares, das famílias orantes, dos seminários e dos mosteiros que viviam a alegria e o entusiasmo pela pessoa de Jesus e por seu chamado ao sacerdócio e à vida consagrada, saíram inumeráveis vocações. Essas vocações foram sempre atraídas para seguir Cristo ouvindo falar d'Ele, vendo-lhe através dos olhos radiantes de alegria e serenidade de outros discípulos, descobrindo-o atrás das grades dos mosteiros onde se elevava a Deus a oração coral como vozes de anjos sobre a terra.
Não nos devemos enganar então dizendo-nos que o segredo da pastoral vocacional é uma questão de método. Não é o método, mas a substância que se precisa antes de tudo, ou seja: fé, oração, entusiasmo e alegria de viver a própria vocação. Estes são ingredientes substanciais e não acessórios que vão acompanhados da fé e da oração perseverante de toda a comunidade por uma renovada e dinâmica pastoral vocacional.
O Santo Padre, no documento dedicado à vida consagrada, expõe claramente seu pensamento a tal propósito:
"Além de promover a oração pelas vocações, é urgente comprometer-se com um anúncio explícito e uma catequese adequada, para favorecer nos chamados à vida consagrada aquela resposta livre, pronta e generosa, que faz operante a graça da vocação, o convite de Jesus 'vinde e vede' (Jo 1,39), e que segue sendo, ainda hoje, a regra de ouro da pastoral

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vocacional. Ela procura apresentar, sob o exemplo dos fundadores e das fundadoras, o atrativo da pessoa do Senhor Jesus e a beleza do dom total de si à causa do Evangelho. O dever primário de todos os consagrados e todas as consagradas é, pois, o de propor energicamente, com a palavra e com o exemplo, o ideal do seguimento de Cristo, sustentando depois a resposta aos impulsos do Espírito no coração dos chamados" (Vita Consecrata, n. 64).
Pensando na situação mundial da distribuição das vocações, o Santo Padre, na mesma Exortação Apostólica, escreve: "ocorre que enquanto as vocações à vida consagrada florescem nas jovens Igrejas e naquelas que sofreram perseguições por parte dos regimes totalitários, escasseiam, porém, nos países tradicionalmente ricos de vocações, inclusive missionárias" (ibidem, n. 63).

8.

Creio que esta é também vossa experiência e isto nos leva a recomeçar, confiando no caminho de Jesus, que, por causa daquele jovem rico, que não quis segui-lo, não se resignou nem diminuiu o ritmo de seu passo alegre da pastoral vocacional, mas continuou adiante e encontrou outros que o acolheram generosamente.
Também em nossa vida pessoal provavelmente tenham havido frases de lentidão, para não dizer de parada, quando se desejava propor com embalo e entusiasmo o chamado ao seguimento de Cristo.
Posso dizer que também eu me perguntei às vezes se não teria podido fazer mais para favorecer e estimular uma resposta total a Jesus por parte de um ou outro que a Providência Divina pôs em meu caminho e que talvez sentisse, mais do que pudesse imaginar, um certo chamado a abandonar tudo pelo Senhor.
Quando o fiz, sem obviamente fazer pressão, e ofereci uma ajuda de discernimento e acompanhamento a quem sentia em seu coração uma possível vocação, o senhor me premiou com muita satisfação. Creio, com efeito, que não há alegria maior para um sacerdote do que aquela que se experimenta quando um jovem agradece pela coragem que transmitiu no seguimento de Jesus como os apóstolos.
Todo discípulo do Senhor, que deixou tudo para segui-lo, seja um sacerdote ou um consagrado, foi investido do amor de Deus, como

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João e André "foram e viram" onde habitava o mestre (Jo 1, 39), sentindo pousar sobre ele o olhar da predileção divina. Esse discípulo é chamado ele mesmo a fazer-se canal aberto do amor eletivo de Deus, a fim de que aqueles que cruzam com ele o olhar possam sentir nele a alegria e o entusiasmo de saber-se amados pelo único e comum Senhor de sua vida.
Quando André comunicou a Simão, seu irmão, que havia encontrado o esperado Messias, seu entusiasmo e seu olhar radiante tiveram, com certeza, um formidável impacto no ânimo de Simão Pedro (Jo 1,40-42). Não me parece exagerado dizer que graças àquela mediação, para Simão Pedro iniciou-se o caminho vocacional.
A história da Igreja e de seus santos conta com inumeráveis "mediações vocacionais" desse tipo. Quantas vezes, com efeito, temos lido na biografia de homens e mulheres de Deus o decisivo papel que foi desempenhado por aqueles que viveram até o fundo sua vocação e foram modelo de vida para outros. Talvez também para nós que estamos aqui, a contribuição de um tal mediador foi fundamental para nosso sim total a Deus.
Nenhum programa e nenhuma metodologia poderia nunca subsistir à contribuição pessoal que somos chamados a dar com nosso exemplo, para a pastoral vocacional. Certamente podem fazer muito as famílias e os educadores mais próximos, mas é insubstituível para o jovem que se sente chamado por Deus o exemplo do ministro ordenado, do consagrado e da consagrada, que encontra em seu caminho. A esse exemplo, vêm logo acompanhando-o os diversos auxílios que a Igreja nos oferece, além dos métodos, também subsídios de estudo, como recentemente tive ocasião de apresentar um a cargo daquela mediação com a qual para Simão Pedro iniciou-se o caminho vocacional.
A história da Igreja e de seus santos conta com inumeráveis mediações vocacionais como essas. Quantas vezes, com efeito, já lemos na biografia de homens e mulheres de Deus o decisivo papel que foi desempenhado por aqueles que viveram até o fundo a sua vocação e foram modelo de vida para os outros. Talvez, também para nós que estamos aqui, a contribuição de um tal mediador tenha sido fundamental para nosso sim total a Deus.
Nenhum programa e nenhuma metodologia poderia nunca substituir

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a contribuição pessoal que estamos chamados a dar com nosso exemplo para a pastoral vocacional. Certamente podem fazer muito as famílias e os educadores mais próximos, mas é insubstituível, para o jovem que se sente chamado por Deus, o exemplo do ministro ordenado, do consagrado ou da consagrada, que encontra em seu caminho. A esse exemplo, acompanham logo os diversos auxílios que a Igreja nos oferece, subsídios a mais e métodos também de estudo, como recentemente tive ocasião de apresentar um aos cuidados do Centro Internacional Vocacional Rogate, que produziu este ano o Dicionário de Pastoral Vocacional.
Ai de nós se as possibilidades que a Divina Providência põe a nossa disposição não forem plenamente utilizadas. "De graça recebestes, de graça também dai" (Mt 10,8): o anúncio do Evangelho de Mateus é mais atual do que nunca e apropriado também no contexto da pastoral vocacional, valendo também para toda a obra suscitada pelo espírito na Igreja.
A mentalidade do jovem rico pode certamente ser a mentalidade dos discípulos de Cristo. Talvez também essa seja a razão pela qual Jesus, diante das perplexidades dos apóstolos sobre as exigências do Reino, declara: "quão dificilmente entrarão no Reino de Deus aqueles que têm riquezas" (Mc 10,23).
A pobreza em espírito é outra nota distintiva para o êxito da pastoral vocacional. Em outras palavras, os chamados devem sentir em nós, que fomos eleitos pelo Senhor, além da fé em seu amor, o entusiasmo e a alegria por nossa vocação, também uma grande humildade e disponibilidade para o serviço.
A Igreja, com efeito, não é uma criação nossa, como também as Ordens religiosas, as Comunidades e os Movimentos católicos, as Paróquias e as Dioceses. Tudo é um serviço ao reino de Deus.
Falando da lógica dos poderosos do mundo, e contrapondo-a à do Reino, Jesus diz aos apóstolos: "não será assim entre vós, mas aquele entre vós que quiser ser grande, será vosso servo e quem quiser estar em primeiro lugar será vosso escravo" (Mt 20,26-27).
A fascinação pela autêntica humildade na fé, atrevo-me a dizer, é irresistível. Podemos medi-la, por exemplo, precisamente sobre a pessoa do Santo Padre João Paulo II. O cansaço, a doença e os

Csaba Ternyák
PARTIR DO EVANGELHO PARA DAR PRIORIDADE À PASTORAL VOCACIONAL

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acidentes têm provado e encurvado seu físico, mas torna-se também um ícone de uma humildade vivida e testemunhada pelo Vigário de Cristo. Realiza-se também aqui, infalivelmente, a palavra de Deus: "quando sou fraco é então que sou forte" (2Cor 12,10).

9.

E aqui, para terminar, volto às palavras iniciais: diante da aparente supremacia do não-sentido, do vazio, da cultura da morte, não nos podemos resignar, mas deve-se opor com decisão a cultura do Evangelho e da vida.
Voltar a colocar o Evangelho no centro da nossa vida pessoal e comunitária é a reforma de qualquer reforma.
"Sem mim nada podeis fazer" (Jo 15, 5), esta frase é incontroversa. Os nossos esforços não serviriam absolutamente, como nos chama a atenção o Santo Padre, se não partíssemos de Cristo. Este é então "o momento da fé, da oração, do diálogo com Deus, para abrir o coração à onda da graça e consentir à palavra de Cristo passar através de nós com todo o seu poder: Duc in altum!" (NMI, n. 38)
Com estas palavras da Novo Millennio Ineunte, retiradas da passagem evangélica da pesca milagrosa (cfr. Lc 5, 7), desejo concluir esta intervenção desejando à vossa ordem, resplandecente de figuras eminentes pela santidade de vida, a começar pelo grande mestre São Bernardo de Claraval, uma pesca milagrosa rica de vocações para a vida contemplativa, para um alegre futuro, "como se sente alegria aquando da colheita" (cfr. Sal 126, 6).
Desejamos rezar para que tal desejo se torne realidade. O Cardeal Paskai de Budapeste, do qual fui auxiliar, diz frequentemente que "não basta pregar sobre a importância da oração pelas vocações, mas que também é necessário rezar".
É por isso que os convido a essa oração que se reza no México ao final de cada Santa Missa, e que agora dedicamos especialmente à vossa Ordem.

"Oh Jesus, Pastor eterno das almas, dignai-vos olhar com olhos de misericórdia para esta porção de teu amado rebanho. Senhor, choramos como órfãos, dai-nos vocações de sacerdotes e religiosos santos, vos pedimos pela intercessão da Virgem

XIII SÍNODO ORDINARIO DA ORDEM CISTERCIENSE
Roma, 24-30 de setembro de 2002

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Imaculada, Maria de Guadalupe, vossa doce e Santa Mãe. Oh Jesus, dai-nos sacerdotes e religiosos segundo o vosso Coração. Amém"!